A história da cidade de Salto está intimamente ligada a da Matriz Nossa Senhora do Monte Serrat. A benção e inauguração da então pequena capela sob invocação da virgem data de 16 de Junho de 1698. A esta data foi atribuída à fundação da cidade. Porem, a real época de surgimento do povoado, perdeu-se no tempo e na história.

Os primeiros registros que remontam os primórdios saltense data por volta de 1690. Ano em que o Capitão Antônio Vieira Tavares, filho do Capitão Diogo da Costa Tavares e sua esposa Maria Leite, filha do bandeirante Manuel Borba Gato, residia no Sitio Cachoeira a uma légua de distancia da Vila de Itu.

A grande distancia em que ele, Capitão Vieira Tavares, sua esposa e agregados encontravam-se da vila mais próxima (uma légua) impunha grandes dificuldades para que eles cumprissem o preceito católico de participar das missas aos domingos e dias santos de guarda.

Foi então que no ano de 1695, aproveitando a passagem por Itu do padre Manuel da Costa Cordeiro, visitador geral e representante do bispo do Rio de Janeiro, que o Capitão Vieira Tavares enviou um oficio ao mesmo solicitando autorização para construir em seu sitio uma capela sobre invocação de Nossa Senhora do Monte Serrat.

Em 21 de Outubro de 1965, o visitador geral assinou uma provisão onde concedia a licença solicitada mediante a observação de algumas condições: “Levantar no Interior da capela um altar onde se pudesse dizer missa; a capela tina de ser isolada na construção; tinha de ser mantida devidamente ornada pelo seu responsável; teria de ter uma cruz no meio do adro; e, por ultimo, teria de submetê-la, antes de sua bênção, à aprovação do padre Felipe de Campos, vigário de Vila de Itu.” (Salto – História, Vida e Tradição. Ettore Liberalesso, pag. 26)

Após a aprovação, Vieira Tavares levaria quase três anos para ver terminada a sua tão sonhada capela. Foi no dia 31 de Maio de 1698 que o padre Felipe de Campos, enviado pelo padre Manuel da Costa Cordeiro, chegou ao sitio Cachoeira para fazer uma visita de inspeção a fim de verificar se tudo estava de acordo com as exigências feitas na provisão de 1965.

Não encontrando nada que desaprovasse, o padre marcou a benção e inauguração da capela para o dia 16 de junho de 1698. Na data estabelecida o sacerdote retornou ao sitio e presidiu as solenidades de benção e celebrou a Primeira Missa. Esta foi assistida por devotos vindos de Itu, pelo próprio Capitão Vieira Tavares, sua esposa Maria Leite, seus parentes, amigos, escravos e índios que habitavam a região.

Origem da devoção a Nossa Senhora do Monte Serrat

Na região da Catalunha, próximo a Barcelona, Espanha, existe a montanha de Montserrat, que deve o nome à forma aguda de seus picos. Conta à tradição que o próprio São Pedro teria levado para Barcelona a Imagem de Nossa Senhora.

Durante a invasão dos mouros, os habitantes daquela região teria escondido a imagem em uma caverna do Montserrat. Dois séculos mais tarde ela foi encontrada, por jovens pastores da região que a levaram para o povoado e ergueram um santuário em devoção a virgem. Explicada a origem de uma das muitas denominações da mãe do Nosso Senhor Jesus Cristo, resta uma pergunta: Como esta veneração a Nossa Senhora do Monte Serrat saiu da Catalunha, Espanha, e chegou até o pequeno sitio Cachoeira?

A resposta mais provável está no livro Salto – História, Vida e Tradição do historiador Ettore Liberalesso. Ali ele nos conta que a origem para devoção a virgem do Monte Serratestá nos imigrantes espanhóis vindos da região da Catalunha que levavam com eles a imagem e a veneração a esta nomenclatura da mãe do nosso Senhor Jesus Cristo.

Outras fontes nos remetem ao primeiro século do descobrimento, onde monges Beneditinos teriam trazido uma imagem da santa para o Rio de Janeiro e ali fundaram a Abadia da Virgem do Montserrate (sem o “T” mudo no final). Também por volta dos anos 1598/1609 foi construída na cidade de Santos, litoral paulista, por ordem do governador geral do estado do Brasil, D. Francisco de Souza, uma capela para a virgem da qual ele era devoto. Mais tarde ele doou a capela aos monges de São Bento.

Sendo o Capitão Vieira Tavares neto e sobrinho de grandes bandeirantes ele provavelmente herdou destes a devoção pela virgem do Montserrat e, ao fixar-se no sitio Cachoeira, ergueu sua pequena capela em volta da qual a cidade de Salto cresceu e se desenvolveu sobre as bênçãos e proteção piedosa da virgem, mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Festas e Devoção

Ainda segundo Ettore Liberalesso, foi no dia 8 de Setembro de 1698, quase quatro meses após a inauguração da pequena capela que aconteceu a primeira “Festa da Padroeira do Salto”, na ocasião muitos devotos da vila de Itu aqui compareceram para prestar suas homenagens a virgem.

Nos dois anos seguintes a festa teve grande afluência de publico, desejando e acreditando que esta se perpetuaria através dos anos e dos séculos, o Capitão Vieira Tavares e sua esposa Maria Leite, receberam, no dia 11 de dezembro de 1700 e hospedaram em sua casa o tabelião comissionado Antônio Machado Passos. O motivo era lavrar uma escritura,na qual se fazia a doação da capela de nossa Senhora do Monte Serrat e o Sitio Cachoeira para a Capela da Vila de Itu.

“…Ambos doavam a capela de nossa Senhora do Monte Serrat, sita no sitio deles doadores dito sitio com todas as terras que possuem… e todo o gado que se acha por falecimento de ambos e todas as pessoas e gentios da terra e escravos que se acharem e as casas de moradores sitas nessa dita Vila… Após a morte de ambos a Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat ficaria com o poder de nomear administradores, os quais ficariam com a obrigação de mandar dizer uma missa por mês pelas almas dos ditos doadores e obrigados a fazer a festa do dia do orago da dita capela… declaravam também que era vontade de ambos se conservasse a dita capela sempre no mesmo lugar…” (Salto – História, Vida e Tradição. Ettore Liberalesso, pag. 31)

O padre Vigário da Vila de Itu, Miguel Dias Ferreira aceitou a doação e junto com outras três testemunhas, Antônio Bicudo Leme, Cosme da Silva Gil e João Pires assinou no 2º Livro Tomo, fl. 15V, da matriz de Itu.

As Imagens da Padroeira e uma história de amor

Assim como previu o Capitão Tavares, a Festa do Salto tornou-se tradição e todos os dias oito de setembro, fiéis das vilas próximas acorriam até o pequeno povoado para festejar a padroeira. A devoção em torno da imagem medianeira aumentava sempre nas épocas de estiagem, quando novenas e tríduos eram feitos em busca da intercessão de Nossa Senhora do Monte Serrat. Nesta época o pequeno povoado tinha pouco mais de 200 moradores e nenhum padre para celebrar as missas domingueiras.

“Pequena, tosca e feia”, assim se referia o padre ituano João Leite Ferraz em relação à pequena imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat. Estamos por meados dos anos 90 do século XVIII, quase um século depois da fundação e inauguração da pequena capela, a esta altura ela já precisava de uma reforma, ou “restauração” como afirmou o padre Ferraz. Este decidiu então que daria a nova capela uma imagem mais suntuosa e digna.

A tradição popular nos conta que a origem da nova imagem está ligada a uma das mais tradicionais famílias ituanas, os Paula Leite: Conta a história que no Sitio Bananal, situado na Vila de Itu, residia um jovem Paula Leite que nutria uma paixão secreta pela prima. Seu nome era Francisco e sem coragem de se declarar a amada foi pedir socorro ao padre Ferraz.

O padre aceitou mediar as conversas entre as duas famílias e prometeu que ele se casaria com sua amada. Porem, em troca o jovem apaixonado deveria fazer-lhe dois favores: O primeiro seria ir até o Sitio Grande, no bairro do Piraí, e de lá trazer uma tora de cedro e depois deveria ele se dirigir até Santana do Parnaíba, encontrar e contratar o mulato de nome Guilherme. Este era um “santeiro” afamado e a ele caberia a tarefa de esculpir a imagem da nova padroeira em tamanho quase que real.

Esta nova imagem ficou na igreja matriz até o ano de 1935 quando, na noite de 18 de janeiro, um terrível incêndio destruiu parte igreja que passava por reforma e ampliação. As chamas consumiram também a obra do mulato Guilherme. Deste trágico episódio, trataremos com mais detalhes, na parte em que abordamos o incêndio e as suas conseqüências.

A Primeira Irmandade

No ano de 1785, uma grande estiagem assolou a Vila de Itu e toda região. Com redobrada devoção o povo voltou-se para a padroeira do antigo “Sitio Cachoeira”. Longas procissões levavam a imagem da virgem e a traziam de volta. Na manhã do dia dedicado a padroeira o povo compareceu a missa festiva. Porem a tarde a procissão não saiu, uma chuva persistente caiu durante o resto do dia e continuou noite adentro.

Ao contrário do esperado a chuva não durou muitos dias, mas veio com tal força que as águas do Tiete levaram as duas pontes que havia sobre ele. Porem diante do fato de ter suas preces atendidas o povo nem se importou em reconstruí-las.

A devoção a virgem do monte crescia com o passar dos anos e já no início do século XIX, era raro um domingo sem missa na pequena capela. Pequena mesmo, a ponto que não dava mais conta de acomodar todos os fiéis que acorriam para os cultos domingueiros.

Mas foi somente no ano de 1856, quando a capela já apresentava as marcas deixadas pelas eras, que a já então Freguesia de Salto viu surgir a sua Primeira Irmandade. Como nome de “Restauradora do Culto a Capela da Virgem” esta irmandade tinha a função de restaurar e cuidar da capela de Nossa Senhora do Monte Serrat.

No auge de sua existência a irmandade contou com duzentos membros. Sendo eles da freguesia de Salto e de outras localidades, como Campinas e Cabreúva. No ano de 1881, a mesma passou a intitular-se “Irmandade de Nossa Senhora do Monte Serrat”.

A cada ano as festa da padroeira atraia mais pessoas. Este numero aumentou consideravelmente após a construção da estrada de ferro Ituana e com a sua extensão até Salto. Nos dias da festa a empresa ferroviária disponibilizava linhas especiais para levar os ituanos até festa.

Consultando o livro Salto – História Vida e Tradição de Ettore Liberalesso podemos ter a idéia de quanto essa festa era popular. “Itu Parava nos dias 7 e 8 de Setembro; seu jornal ‘a imprensa Ytuana’ não circulava; o comércio e a industria não funcionavam e a prefeitura decretava ponto facultativo…” (Salto – História, Vida e Tradição. Ettore Liberalesso, pag.36)

O povoado é elevado a Freguesia e Precisa de um Padre.

Foi em 6 de março de 1886 que a Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrat recebeu a denominação de “Freguesia” e, como tal, tinha os mesmo privilégios e deveres de uma Igreja Paroquial. Mas apesar do titulo a paróquia não tinha um padre, este fato foi duramente criticado pela “Imprensa Ytuana” no dia 27 de outubro de 1887. (Salto – História, Vida e Tradição. Ettore Liberalesso, pag. 39)

Em janeiro do ano seguinte a paróquia finalmente teve a nomeação do seu Primeiro Pároco. O padre Gomes Reis chegou à freguesia no dia 2 de fevereiro de 1888, porem uns 3 meses depois ele foi embora e comunidade continuou sem pastor até o ano de 1892, quando o padre Jesuíta Bartholomeu Taddei assumiu a paróquia. Foi durante seu paroquiato que ocorreu a primeira cerimônia do Sacramento Crisma na Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, que foi celebrada pelo bispo D. Lino.

No curto espaço de tempo de cinco anos, quatro padres foram nomeados para a paróquia de Salto, eram eles: Padre Tomas Antico, Vicente Fázio, Salvador Sorrentino e Antônio Pepe. Este ultimo, padre Pepe, ficou na paróquia por 13 anos.

Nesta época a industrialização da cidade acrescido ao grande fluxo de imigrantes italianos e o crescimento populacional deu ao padre Pepe melhores recursos para administrar a paróquia. Durante seu tempo de pároco ele fundou a Pia União das Filhas de Maria de Salto e a Sociedade Saltense de Socorro Mútuo.

Sucederam ao padre Pepe os vigários Lourenço Seraphine, Arthur Leite de Souza e por ultimo JOÃO DA SILVA COUTO.

Este ultimo, merece destaque. Pois seu paroquiato em Salto durou quatro décadas, sendo que ao longo destas ele cumpriu com o que o bispo D. Duarte Leopoldo e Silva lhe havia atribuído, tornou-se de fato um “pastor de almas” ajudando e guiando seu povo de maneira incansável até os dias finais de sua vida.

João da Silva Couto, Padre, Monsenhor e Pastor de Salto monsenhor_couto

O padre Couto foi nomeado pelo arcebispo D. Duarte Leopoldo e Silva em 23 de dezembro de 1925. Logo após sua chegada, em janeiro de 1926, o sacerdote mostrou a que veio e sacudiu os movimentos católicos já existentes, alem de apoiar outros que viriam a surgir mais tarde. O “Circulo Católico” merece especial destaque, pois este, como afirma Ettore Liberaresso no seu livro, já citado anteriormente, se tornaria o “braço direito do padre Couto”.

A nova Matriz

230 longos anos já havia se passaram desde que pequena capela foi erguida pelo Capitão Vieira Tavares. Mesmo tendo passado pela “restauração” do padre Ferraz em meados da década de 90 do século XVIII, os anos foram implacáveis, alem disso a população saltense crescia a olhos vistos. Fazia-se necessário uma igreja maior.

No dia 12 de fevereiro de 1928 foi lançada a pedra fundamental da nova Matriz. A ata lavrada pelo então diretor do grupo escolar “Tancredo do Amaral”, prof. Claudio Ribeiro da Silva e a mesma relata que abaixo da referida pedra fundamental foi depositada uma urna contendo uma copia da ata lida e devidamente assinada, algumas moedas da época e alguns exemplares dos jornais daquele dia.

Passada as festividades de lançamento, era hora de por a mão na massa e começar a levantar os alicerces da nova matriz que seria levantada ao redor da antiga, para depois derrubá-la. No entanto as obras causaram rachaduras no velho prédio. A solução encontrada foi acelerar a construção do “Salão do Circulo Católico” para que ali fossem celebradas as missas.

Um ano e meio depois o salão estava pronto. Nos dias 5, 6 e 7 de Junho de 1929, um tríduo marcou a benção do altar mor e a transferência da imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat para o salão. Nos anos que se seguiram a população, pacientemente, se acotovelou no pequeno ambiente e, os que lá não cabiam, ficavam a porta enfrentando as intempéries do tempo para acompanhar as celebrações.

Sempre que possível o povo se reunia em festas, tômbolas (uma espécie de loteria ou bingo), quermesses, etc. para arrecadar dinheiro que seria investido na construção do novo templo. Alem disso, inúmeras vezes, os operários das fabricas da cidade autorizavam que seus empregadores lhes descontassem um dia de trabalho dos seus já apertados ordenados em prol da construção. Um verdadeiro exemplo de fé e devoção. Prova que a igreja é , principalmente, dos pobres e humildes.

A data de 31 de dezembro de 1933 ficou conhecida pelo povo saltense como o “Dia da 1ª Telha”. Naquela manhã a praça estava toda enfeitada e animada pelas bandas “Italiana” e “Brasileira”. A população se ajeitou ao redor do “esqueleto” da nova matriz para assistir, com grande pompa, ao momento em que o maestro Henrique Castelari, também encarregado do madeiramento do prédio, inçou a primeira telha da “nova casa de Nossa Senhora do Monte Serrat”.

Três anos depois, no dia 1º de maio de 1936, a nova matriz foi benzida e inaugurada. Ela ainda não estava totalmente pronta, porem, o povo já ansiava por ter novamente seu templo, ainda porque um terrível incêndio, já havia atrasado os planos da comunidade.

O incêndio

Com as obras bem adiantadas, 1935 ficaria marcado para do povo cristão de Salto como um ano trágico. Na noite de 18 de Janeiro um incêndio destruiu o altar mor e boa parte da igreja, levando com ele a imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat. Este episódio foi narrado com riqueza de detalhes pelo historiador Ettore Liberalesso no livro “Salto – História Vida e Tradição”. Por isso achamos por bem transcrevê-la aqui, ipsis litteri: “…Naquele tempo, a pacata população saltense recolhia-se cedo, pois a cada dia iniciava-se uma nova jornada de trabalho. Terminado o costumeiro terço, diariamente conduzido as 19 horas pelo vigário com a participação de 30 ou 40 pessoas, fechadas as portas e janelas apagadas as velas e lâmpadas da Matriz, a praça da igreja mergulhava num silêncio completo, mal quebrado pelo ocasional apito de um guarda da Brasital,pela passagem de um dos raríssimos carros existentes então, ou ainda pelo assobio flauteado de algum raro transeunte. E foi justamente um desses que notou, cerca das 10 horas, que algo de estranho estava acontecendo no interior do templo, que não podia estar assim iluminado aquela hora. Prestando mais atenção, viu que o clarão aumentava e daí a chegar a conclusão de que estava irrompendo um incêndio não foi difícil.

Acordou a vizinhança, gritou por socorro e, daí a pouco, os sinos montados na torre de madeira ao lado do salão do ‘circulo’, começavam a tocar, o apito da fabrica próxima era acionado e, em pouco, a praça estava tomada de povo, que procuravam salvar o que podia, enquanto latões, baldes, até caldeirões cheios de água, passados de mão em mão e trazidos de tantos pontos, tentavam dominar a fogueira, que se alastrava com grande rapidez.

…A imagem com mais de cento e trinta anos, acabou também por ser atingida ante o olhar perplexo dos poucos elementos mais ousados que teimavam em salva-la, desobedecendo às ordens da polícia que interditara o local. Debalde! Pouco depois, da desolada platéia, compungida e chorosa, nada mais existia senão um monte de escombros…” (Salto – História, Vida e Tradição. Ettore Liberalesso, pag. 53 e 54)

No dia seguinte os fiéis encontraram, em meio às cinzas, o que havia sobrado da imagem mais que centenária. Era parte da cabeça que foi guardada com pesar e esmero. Hoje a mesma encontra-se no Museu da Cidade de Salto, como marca indelével da tragédia.
Porem o povo, resoluto e austero, não choraria por muito tempo e novamente se uniu em torno do seu querido padre e logo os trabalhos para recuperar as perdas recomeçaram.

Alem da reconstrução da igreja, era urgente que se providenciasse outra imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat. Esta nobre tarefa ficou novamente a cargo da família ituana que havia patrocinado a feitura da imagem perdida no incendio, os Paula Leite. Sendo assim, através de um “Livro de Ouro”, Antônio de Paula Leite Camargo conclamou seus familiares e, em pouco tempo, já havia arrecadado o dinheiro necessário.

Foi o escultor S. Scopoli que se encarregou em esculpir a nova imagem, que, segundo o historiador, Ettore Liberalesso, era “um tanto diferente da anterior. Porem não menos bela”. (Salto – História, Vida e Tradição. Ettore Liberalesso, pag. 57)

No dia 1º de Setembro de 1935, o povo saltense foi apresentado a obra do mestre escultor. Alem disso, um coral cantou, pela primeira vez, o Hino de Nossa Senhora do Monte Serrat.

“Uma Semana que Valeu Por Um Congresso Eucarístico” (Ettore Liberalesso)

Realmente não há definição melhor para a semana em que se comemoraram os 25 anos do circulo católico de Salto e o jubileu de prata do Monsenhor Couto. As comemorações aconteceriam na semana de 10 a 17 de dezembro de 1950, porem o povo preparou tudo com grande antecedência e planejou de maneira esmerada cada detalhe.

Os preparativos foi, por várias semanas, motivo de reuniões e debates. Não se falavam em outra coisa. O Padre Lúcio Graziosi Flório compôs um hino oficial da semana eucarística que foi musicado pelo maestro José Maria Marques de Oliveira, as portas das casas receberam emblemas comemorativos, foram cunhadas duas mil medalhas e cinco mil santinhos como lembranças.

O povo desejava que esta festa ficasse marcada na história da cidade. E assim aconteceu: durante toda a semana, autoridades, civis e religiosas, acorreram para a cidade. Porem, como não podia deixar de ser, foi o dia do encerramento da semana que entrou para a história como o maior evento cristão que a cidade já havia presenciado.

Vinte e cinco padres, cinco bispos, presença da “Guarda de Honra de Jesus Sacramentado” de Itu, várias irmandades, romeiros e fiéis devotos de toda cidade comemoraram os dois jubileus de prata que, após uma majestosa procissão, encerrou-se com uma grande queima de fogos.

Mas, a despeito de todo dinamismo e liderança do Monsenhor Couto, os anos se sucediam e seus aniversários insistiam em acontecer, com eles vinham também à fragilização da saúde do velho sacerdote.

No feriado de dia 1º de maio de 1970 o povo saltense foi acordado ao toque fúnebre dos sinos da matriz, estes anunciavam uma triste noticia. Vencido pelos anos e com a saúde fragilizada, o padre Monsenhor Couto havia falecido, na noite anterior, aos 82 anos

Seu corpo foi conduzido até o templo onde ele, por quase quarenta anos, celebrou missas, batizados, casamentos, primeiras comunhões, etc. A ultima vez que o Monsenhor havia entrado ali caminhando, ainda que com dificuldades, foi em 8 de dezembro do ano anterior, dia de Nossa Senhora da Conceição e do seu 82º aniversário.

A população saltense, ituana, autoridades, civis e eclesiais, irmandades, representantes de ordens religiosas, etc., acorreram até a Matriz para prestar suas ultimas homenagens ao Monsenhor Couto que, logo após a missa de corpo presente, acompanharam o cortejo até o cemitério municipal.

Homenagens póstumas

Em 2 de março do ano seguinte, 1971, um busto do monsenhor couto, feito em bronze e sustentado sobre um pedestal de granito rosa, foi descoberto pelo padre Mario Negro na presença de romeiros (que voltavam de Pirapora), fiéis e autoridades. O Local escolhido para eternizar a memória do Monsenhor foi o meio do passeio publico, em frente a Matriz Nossa Senhora do Monte Serrat.

Em 28 de março de 1971, o tumulo do Monsenhor couto foi transformado em Mausoléu. O monumento foi esculpido em pedra e mármore pelo artista Pedro Baldi e assim está disposto: Duas Tabuas da lei, com 2,5 metros de altura, busto do Monsenhor e placas elogiosas a sua memória.

Padre Mario Negro, o novo pároco de Salto

Em Janeiro de 1968 o padre Mario Negro chegou a Salto para auxiliar monsenhor Couto na paróquia. Ele era o 14º sacerdote neste cargo e o que mais durou. Durante anos foi um fiel escudeiro do pároco, ele fortaleceu vários movimentos, alem de ajudar a fundar outros tantos. Podemos destacar aqui os movimentos de casais e grupos de jovens.

Mario Negro, mesmo antes do falecimento do Monsenhor couto, devido a sua saúde debilitada, já havia assumido, ainda que informalmente, a administração da paróquia e após a morte do mesmo seguiu pastoreando a comunidade saltense sendo confirmado pelo bispo novo pároco da cidade.

Oito anos após a sua posse como pároco e em reconhecimento ao esmero e dedicação com a qual o pastor cuidava do seu rebanho e dos assuntos da santa Madre Igreja, o Papa Paulo IV outorgou ao padre Mario Negro, em 13 de abril de 1978 o titulo de Monsenhor.

O Monsenhor Mario Negro ficou em Salto até 17 de julho de 1997, quando foi destituído de suas funções pelo bispo Dom Amaury Castanho. Neste ano o Monsenhor completaria 75 anos de idade, sendo assim, conforme as regras do código canônico, constituição da igreja, ele deveria deixar o seu cargo.

No entanto o monsenhor insistia com o Bispo que desejava ficar no posto até depois de 16 de junho de 1998, quando a paróquia e a cidade comemoraria seu terceiro centenário. O bispo não atendeu seu desejo e alegando outras razões destituiu Mario Negro e nomeou o Padre José Raimundo Lucas Prazer o novo pároco da paróquia Nossa Senhora do Monte Serrat. Monsenhor Mário Negro faleceu em 16 de maio de 2006 na cidade de Salto – SP

O Fundador e a Primeira Imagem Retornam a Salto

Falecido em 4 de dezembro de 1712, o Capitão Vieira Tavares, fundador de Salto, foi sepultado na Capela-Mor da igreja dos Religiosos Franciscanos da Vila de Itu. Ali ele repousou até o ano de 1981, distante do seu amado “Sitio Cachoeira”, quando seus restos mortais foram conduzidos de volta a terra onde, 283 anos antes, edificou a pequena capela que deu inicio a Odisséia do Povo Saltense.

Foi na manhã do dia 21 de Junho de 1981 que, com grande pompa, os filhos de Salto, nativos e migrantes, prepararam-se para receber de volta seu cidadão “Numero Um”. Um carro de boi, como aqueles usados pelos primeiros desbravadores do nosso país, aguardava, na entrada da cidade, a urna com os despojos do fundador.

Até ali transportada por uma guarda de honra do GACAP de Itu, a urna foi solenemente entregue ao prefeito Jesuino Rui que a colocou no carro de boi. Após os discursos e a homenagens devidas para ocasião, o carro saiu cantando suas rodas. A frente seguia um pequeno andor. Nele uma imagem, “Pequena, Tosca e Antiga”.

Esta era a mesma imagem que, em 16 de Junho de 1698, foi entronizada na pequena capela de Nossa Senhora do Monte Serrat pelo próprio Antonio Vieira Tavares, substituída por outra em 1797, ficou desaparecida por mais de 180 anos e ressurgiu naquele dia festivo para não mais deixar a nossa terra.

Os ossos do fundador foram levados até a Praça Papa João Paulo II e, na capela do monumento a padroeira, Nossa Senhora do Monte Serrat, foram depositados em um jazigo feito com granito saltense. Junto ao jazigo foi depositada a pequena imagem da sua devoção.

Hoje esta obra de inestimável valor histórico está localizada no altar lateral esquerdo da Igreja Matriz Nossa Senhora do Monte Serrat, onde pode ser admirada por saltenses e visitantes.

Algumas Curiosidades:

• O primeiro Saltense a ser ordenado padre foi Pedro Paulo Salvadori, fazia parte da Ordem Passionista e teve seu nome alterado para Padre Basílio. A cerimônia, presidida pelo Bispo D. José Marcondes Homem de Melo, aconteceu na cidade de São Carlos no dia 28 de abril de 1934.

• Em 8 de Dezembro de 1961, aconteceu na igreja Matriz Nossa Senhora do Monte Serrat, em Salto, a primeira ordenação de um Sacerdote. O padre Darcy Casagrande foi instituído do sacramento pelo Arcebispo Coadjutor de São Paulo, D. Antônio Maria Alves de Siqueira.

Bibliografia:

LIBERARESO, Ettore. Salto – História, Vida e Tradição. 2ª Edição. São Paulo: Imprensa Oficial. 2000, 522 p.
Obs.: Este texto é uma compilação do primeiro capitulo do Livro Salto – História Vida e Tradição do historiador Saltense Ettore Liberalesso.

Por: Robson Nascimento