A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO MONTE SERRAT SURGIU NA ESPANHA …

O culto à mãe de Deus existe desde os primeiros tempos do Cristianismo e o primeiro santuário de que se tem notícia histórica é o da Síria, em 390. O culto mariano foi definido, no Concílio de Éfeso, no ano 431. No fim da Idade Média, a Europa romântica e gótica ergueu muitas igrejas, verdadeiros centros de arte e religião que exaltavam o culto à Virgem Maria.

O culto a Nossa Senhora do Monte Serrat surgiu na Espanha, durante a Reconquista, época de lutas entre os cristãos contra os mouros que tinham invadido a Península Ibérica (Portugal e Espanha). Para escapar aos saques, igrejas e capelas foram desativadas, sendo muitas das suas imagens escondidas.

Segundo a tradição, teria sido um pastor que encontrou, na Catalunha, numa área deserta, uma imagem da Virgem Maria com o menino, dentro de uma caverna. A região tem um relevo muito especial, estranho, de rochas agudas que lembram, no horizonte, os dentes de uma gigantesca serra de cortar. Daí o nome de Monte Serrate. O pico mais alto mede 1.235 metros e chama-se São Jerônimo. Da Catalunha (Espanha) a devoção a Nossa Senhora do Monte Serrat espalhou-se pela França, Itália, Portugal, Países Baixos, Alemanha, Áustria, Tchecoslováquia e outros.

Exerceu marcante influência nas lendas da cavalaria medieval, como na História de Carlos Magno e os Doze Pares da França.

Trazido pelos espanhóis, veio o culto para a América Central, ainda na época de Colombo, e depois para o México, Peru, Equador, entre outros. De Portugal chegou à Bahia, no tempo de Tomé de Sousa e o “…Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrate, protetora da Catalunha, fundaram Senhores da Torre que chamam Garcia Dias Ávila…” (antes de 1580), segundo frei Santa Maria no Santuário Mariano de 1723.

O grande impulso a essa devoção foi dado por D. Francisco de Sousa, governador geral, viajando pela Bahia, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos e Sorocaba. D. Francisco chegou a Santos em 1599, em pleno período espanhol, e governou o Brasil até 1605. Voltou novamente ao Brasil em 1608, para governar a Repartição do Sul e morreu pobre, em 1611.

Segundo a tradição, a imagem achada no Monte Serrate teria vindo de Jerusalém para a Espanha e por isso ela é também chamada de “Jerusalamita”.

São muitos os significados religiosos da devoção. A começar pela construção da capela no alto de um morro de 150 metros, para onde foi difícil levar o material. Na mitologia, a montanha é símbolo primordial, pois representa segurança e uma maior proximidade com Deus. Ir à montanha significa uma forma de ascensão religiosa. O monte é a lembrança da terra, a grande mãe que nutre o homem, da qual ele depende para a sua sobrevivência. Tornou-se costume católico a consagração dos montes a Deus ou aos Santos.

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Imagem original de N.Srª do Monte Serrat

Incontáveis são os milagres atribuídos a Nossa Senhora do Monte Serrat desde o século XVII, tempos de invasões corsárias, como a do holandês Spilbergen, em 1615, registrado pela tradição do desmoronamento sobre os invasores. Frei Santa Maria escreveu: “Com esta santíssima imagem têm muito grande devoção os moradores daquela vila, e assim eles, como os religiosos monges, a servem e festejam com muita grandeza e devoção (…) é muito grande o concurso da gente de toda aquela vila que vai louvar e visitar aquela milagrosa senhora, porque, além de ter casa de muita romagem em todo o ano, neste seu dia é muito maior o concurso. Nele lhe vão a oferecer as suas ofertas e a pagar os seus votos”.

Essa descrição, anterior a 1723, serve muito bem para a festa do dia 8 de setembro. No século XIX, a festa do Monte Serrat reunia multidão que rezava e se divertia barulhentamente. Havia reclamações sobre aspectos da festa, considerados demasiado lúdicos. Nessa época, só a festa no Monte Serrat durava três dias.

A festa é encerrada com a procissão do Senhor do Bonfim, cuja imagem é uma das mais notáveis obras de arte de Santos. A devoção do Bonfim originou-se em Setúbal, Portugal, e veio para o Brasil em 1745, para a Bahia, estando ligada ao culto mariano.